29 de Novembro de 2009

Coma

cheira-me a pacotes de bolachas, a maços de tabaco passados por debaixo das mesas, por debaixo das camas, passados por gente suada, chegada em transportes públicos, os dentes amarelados na falta de dentista e de dentífricos mentolados, o cheiro das prováveis flores do jardim do átrio do hospital, goivos reluzentes de clínicas caras, de lares de idosos de cascais, birre, cheira-me a coisas proibidas pelos médicos, como se os familiares nos quisessem mortos mais depressa, como se quisessem eles próprios curar a sua doença, que somos nós, nós que não morremos de uma vez e ficamos aqui, a viver apenas nas nossas cabeças, mantidos por máquinas, por médicos e enfermeiras com medo de ficar sem trabalho

cheira-me a éter, o cheiro que espalham nos hospitais para que não nos cheire a mijo, a doença, a morte, mas a mim cheira-me a tudo isso, cheira-me a mijo mas deve ser da cama ao lado porque eu não me sinto molhado, cheira-me a doença mas deve ser da cama ao lado porque nunca me senti tão bem, cheira-me a morte mas deve ser da cama ao lado porque eu estou vivo e não acredito que, quando dizem já não deve sair do coma, estejam a falar de mim

28 de Novembro de 2009

Chlorophyll Skin

An experimentation into color, movement, absorption and the body
(projecto conjunto de Lucy McRae e Mandy Smith)

Pensamento literário

Que fazer? Esta pergunta devia flutuar pesadamente nos corredores literários. Que fazer: escrever as obras desfasadas que o leitor médio demanda ou tentar outra coisa? Que fazer: continuar produzindo livros ou praticar uma escrita que ultrapasse os limites do livro? Que fazer: defender uma tradição ilustre ou pôr-se a par do mundo? Que fazer: Literatura – assim, com maiúscula – ou uma escrita que, para dizer melhor o presente, renuncie inclusive, sobretudo, ao literário? Que fazer: romances capazes de comunicar ainda a cartilha humanista ou aceitar que algo mudou e exercer, para dizê-lo de algum modo, uma escrita pós-humanista? Seria absurdo exigir a todo o escritor uma resposta, mas é necessário que toda a escrita esteja consciente destas disjuntivas.

27 de Novembro de 2009


Mesquita de Penzberg
(Arquitecto: Alen Jasarevic)

O impedido

Cada um é para o que nasce e o presidente da república, que sem sombra de dúvida há-de ter nascido para muitas coisas excelentes, não nasceu para prestar declarações públicas, sobretudo se cercado por um magote de jornalistas ávidos: fica rígido e empertigado, a elocução perde a naturalidade, usa um tom deslocadamente didáctico e parece estar a teatralizar a figura de si próprio. Por seu lado, os jornalistas, impiedosos, não atenuam o seu bombardeamento de perguntas e, assim, pediram-lhe há dias um comentário acerca do processo Face Oculta. Cheio de razão, Cavaco respondeu estar impedido de fazê-lo, por razões legais e constitucionais. Mas fica a boiar uma outra pergunta: estará também impedido de falar, de um modo generalizado mas suficientemente claro e enérgico, da hemorragia de violações de segredos de justiça que tantas vezes parecem levar água ao imaginário moinho presidencial?

26 de Novembro de 2009


Em escuta: Moritz Von Oswald Trio,Vertical Ascent (pattern 3)
(álbum Vertical Ascent)

Fogo duplo

Entendamo-nos: a circunstância de ser alvo de fogo vindo de duas forças opostas não significa necessariamente que se está na opção certa. Esta sentença um tanto pedante cai aqui a propósito ou despropósito do serviço inevitavelmente público (mesmo que sem a exigível utilidade pública) que vem sendo prestado pela RTP, com óbvio destaque para o seu canal principal. Sobre a operadora estatal disparam os que, por estarem dentro daquilo a que caridosamente podemos chamar esfera de influência dos canais privados, gostariam de vê-la privatizada, na impossibilidade prática de vê-la extinta, ou, em alternativa, reduzida a uma tal miséria financeira que definitivamente eliminasse a possibilidade de ser concorrencial, mesmo minimamente. Nessa estratégia se incluem as pressões para que à RTP sejam retiradas no todo ou em parte as receitas publicitárias que então reverteriam em favor das privadas. Mas a RTP é também criticada pelos que, no pólo oposto, ainda não desistiram de ver um dia, talvez numa manhã de nevoeiro, vê-la assumir-se como o canal de verdadeira utilidade nacional, rejeitando a competição com as estações privadas em matéria de populismos e demagogias, aplicando-se finalmente a cumprir o dever que lhe cabe na resistência possível ao tsunami das ignorâncias convencidas e infecciosas que caracterizam o tempo que vivemos. E que uma operadora pública de televisão só encontra justificação num serviço que combata as diversas formas de analfabetismo que se pavoneia por aí, triunfante, e ameaça reduzir o país a uma pobre coisa em risco de não merecer sequer a sobrevivência.

25 de Novembro de 2009


Em exposição: 054, de José António Varatojo

Ascensão Vertical

A música electrónica é, regra geral, uma actividade solitária e pouco dedicada à formação de bandas. Esta foi a surpresa número um, com o trio de Moritz von Oswald. A segunda surpresa vem do facto do seu líder ser, com Mark Ernestus, o influente arquitecto dos Rhythm & Sound, uma das mais emblemáticas transformações que o techno sofreu desde que se emancipou de Detroit; mas também o autor dos máxis M-Series posteriormente reunidos na coleccionável metal box. A terceira é vermos o brilhante músico electrónico Vladislav Delay assumir o seu primeiro instrumento - a bateria. Juntos, com Max Loderbauer dos Sun Electric, planeiam uma longa viagem hipnótica pelas entrelinhas do techno, abdicando do ritmo em prol do ambientalismo dub e de uma ideia de jazz falso. A capa do seu disco de estreia, mostrando um protótipo de um foguetão, ilustra quanto o trio procura o espaço e, por consequência, a liberdade. É justamente para lá que Vertical Ascent nos empurra e mantém.

Esta noite às 22:00 no Teatro Maria Matos, que continua a oferecer-nos uma viagem pela contemporaneidade musical.

Em escuta: Moritz Von Oswald Trio, Vertical Ascent (Pattern 4)

24 de Novembro de 2009


Em exibição: Laranja mecânica, de Stanley Kubrick